sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O carteiro e o poeta.


José trabalhava há mais de 15 nos Correios. Tinha uma certa paixão pela profissão. Ser responsável por entregar as correspondências, contas e avisos (hoje mais contas que cartas) era pra ele um motivo de orgulho. Nunca foi muito católico nem se apegou a nenhuma religião, apesar da batalha de sua mãe para que ele se tornasse religioso fervoroso.

Quando se aproximava o mês de Dezembro, o trabalho aumentava bastante. Logo agora, no fim do ano, quando o corpo já dava sinais claros de que necessitava de férias. Os músculos não estavam tão rígidos mais, e os 10 km que andava por dia no começo do ano não passavam muito de 4, agora. Quem sofria mais era Márcia, sua mulher, que agüentava diariamente as queixas do marido e sua falta de vontade para certas atividades.

Certa vez, lá pelo dia 15 do último mês do ano, José se depara com uma carta endereçada ao bom velhinho, e mais do que curioso a abriu. Não pela vontade de fazer uma caridade, mas por crua curiosidade.

João, de sete anos, escrevia uma carta ao Papai Noel contando das dificuldades que sofreu durante todo o ano. Tinha sido um bom menino. Ía sempre à escola da periferia, passara até com boas notas, e não serviu ao tráfico de drogas. Sua mãe, alcoólatra, trazia um homem diferente à sua casa à cada dia. João não entendia isso muito bem. Seu pai, havia saído de casa ainda no começo do ano. Foi comprar cigarros e nunca mais voltou. Ainda tomava conta de seus dois irmãos, mais novos. O ano havia sido duro para João, e chegara a hora de ser recompensado. Pedia ao Papai Noel a ínfima quantia de 100 reais, para ajudar nas despesas de casa e pra comprar um pouco de comida, já que havia 2 dias que ele não sabia o que era aquilo.

Parece que o espírito natalino mexeu com os sentimentos de José, que após terminar de ler a carta se emocionou. Pela primeira vez em seus 40 anos de vida ficou balançado. Foi pra casa pensando naquilo. Nem teve fome pra jantar, e isso deixou Márcia chateada, já que o frango ensopado deu muito trabalho e foi feito com muito carinho e amor. Dormiu pensando em João. E acordou assim também.

No dia seguinte, chegou ao local de trabalho e resolveu mobilizar os colegas de trabalho, que também ficaram emocionados com a situação de João. Os funcionários dos Correios resolveram fazer uma vaquinha para juntar os 100 reais que João havia pedido de presente de Natal. Doavam 2 aqui, um vale transporte ali, um mais afortunado doou 5. Mas o décimo-terceiro salário já estava comprometido para pagar algumas contas e ajudar na passagem de ônibus da sogra, que vinha lá do interior da Bahia.

Assim, conseguiram juntar 80 reais e depositaram em um envelope endereçado ao barraco de João. Estavam felizes. Os risos em seus rostou iam de orelha a orelha, e pensavam na boa ação do mês, na ajuda a uma criança carente.

Dias depois, 4 para ser mais exato, José acha outra carta de João, e grita a todos para que escutem a resposta do garoto. Os agradecimentos, pensavam eles.

E ficaram muito surpresos quando José terminou de ler a cartinha-resposta do menino. Com sua letra, em garranchos, lia-se: " - Papai Noel, muito obrigado pelo dinheiro. Mas, da próxima vez mande a quantia em cheque, porque aqueles filhos-da-puta dos caras dos Correios roubaram 20 reais".

Nenhum comentário: