Sempre me interessei muito pelas conversas de ônibus. Esses assuntos entre 2 ou mais pessoas que ,ou devido ao alto tom de voz ou a (ir)relevância do que é discutido, passam a interessar a todo o ambiente.
De um modo geral, os cidadãos que se locomovem pelo meio de transporte público rodoviário ( eufemismo para os famosos dependentes do balaio) se sentem como em suas próprias casas. Afinal passam cerca de 2 ou 3 três horas, entre idas e vindas, e procuram deixar o local bem aconchegante para que a rotina não os desgaste.
Um bom meio para esse "aconchego" é o livro/revista/texto da faculdade. O tempo que se "perde" dentro de um ônibus, usa-se para ganhar lendo algo que presta. Outro, muito difundido nos dias de hoje, é o tal do mp3. Aqueles aparelhinhos que tocam um número muito maior de músicas que você irá escutar em toda a vida, mas que consegue manter os "chatos do busão" bem afastados.
Quem não utiliza um desses meios pode ter o azar de conviver com esse tipo de pessoa. Os chatos estão sempre lá. Esperando alguém mais conversado. Eles também não tem mp3, por isso esperam um papo para passar o tempo. Às vezes até tem um tocador de música, mas a altura em que escuta e os gestos e gritos os fazem ainda mais chatos.
Bom, hoje às 22:22 me deparei com um desse tipo. Enquanto me perdia em meus devaneios, entre os pensamentos de um dia cheio e os planos para um outro igualmente, algo me impactou. Mas não diretamente, pois graças a Deus, ou uma cadeira vazia na segunda fileira, o chato e bêbado, recém-saído de um happy hour, penso eu, abordou Maria (a moça da primeira fileira pra conversar).
- Aqui, você usa salto alto?! A voz quebrava todo o silêncio daquele momento. Cabeças se viravam para ver o que estava acontecendo.
- Ahn?! Não não.
- Nossa. Não consigo imaginar como essas mulheres conseguem andar de salto. Sabe, nessas ladeiras, buracos da cidade.
- É - os olhos quase fechando. Ela não via a hora de chegar em casa.
(40 segundos de paz)
- Sabe, isso me intriga. Uma moça acabou de entrar aqui, outra desceu...
- É.
- Isso é tortura! - bradou indignado, atraindo mais olhares para si.
- Pois é né...
- Essa coisa de andar o dia inteiro na ponta do pé. Só pode ser coisa de louco!
(outros 40 segundos...)
- Qual o seu nome?
- Maria.
- Oi Miriam, tudo bem? Frederico.
- É MARIA! - já sem nenhuma paciência.
- Oi Maria, tudo bem? Eu sou o Frederico.
- Tudo, tudo sim - demonstrando que nada, nada estava bem.
(mais uns 30 segundos sem comentários)
- Porque você sabe né. Imagina descer essa morraiada aí de salto. Imagina... E olha que eu nem tô falando de subir, hein?! Cê tá me entendendo?!
- Aham...
Eis que chega o ponto do nosso amigo. Ele ajeita, meio desajeitado, a mochila em suas costas e puxa a cordinha. Sorri para Maria:
- Boa noite. E não use saltos.
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